Política de uso de IA no escritório de advocacia: modelo prático
Em algum momento, alguém do escritório já colou um trecho de contrato ou a conversa de um cliente em uma ferramenta de IA para ganhar tempo. Sem regras, cada pessoa decide sozinha o que é seguro. Veja como escrever uma política de uma página.

Em algum momento, alguém do escritório já colou um trecho de contrato, uma petição ou a conversa de um cliente em uma ferramenta de IA para "ganhar tempo". Provavelmente mais de uma pessoa. E provavelmente sem que o sócio soubesse.
Isso não é malícia: é produtividade. O problema é que, sem regras, cada pessoa decide sozinha o que é seguro, e a decisão errada pode atingir o sigilo profissional, a LGPD e a responsabilidade do escritório.
Este artigo não repete a comparação de ferramentas (para isso, veja melhores IAs para advogados). O foco é prático: como escrever uma política de uso de IA de uma página, com um modelo que o escritório pode adaptar.
Aviso
O modelo é um ponto de partida, não um parecer. Adapte ao seu escritório, às ferramentas que você usa e às orientações da sua Seccional e, se houver dados pessoais em larga escala, de um profissional de proteção de dados.
O que as regras já dizem
O quadro normativo sobre IA na advocacia está em formação, mas há pontos de apoio:
- Recomendação nº 001/2024 do Conselho Federal da OAB, sobre o uso de IA generativa na prática jurídica. Entre as orientações, destaca a atenção especial ao usar IA para levantar doutrina e jurisprudência (item 3.2), com a lembrança do dever de veracidade perante o juízo (CPC, art. 77), e a recomendação de considerar comunicar ao cliente, de preferência por escrito, o uso da ferramenta, com finalidade, limites e medidas de segurança (item 4.4).
- Sigilo profissional. O Estatuto da Advocacia (art. 34, VII) considera infração disciplinar violar, sem justa causa, o sigilo profissional. Dados do cliente colocados em uma ferramenta que não oferece garantias adequadas de confidencialidade são um risco.
- LGPD (Lei 13.709/2018). Dados pessoais de clientes e de terceiros, inclusive sensíveis, exigem base legal, finalidade, minimização e segurança. Veja LGPD para escritórios de advocacia.
- Responsabilidade pela peça. Quem assina responde pelo conteúdo. Citação de jurisprudência inexistente gerada por IA já levou advogados a sanções em diversos países, e o risco existe aqui também.
A política interna é o instrumento que transforma esses princípios em rotina.
As seis perguntas que a política precisa responder
1. Quais ferramentas são autorizadas?
Liste as aprovadas e proíba as demais para dados de clientes. A diferença entre versões gratuitas e corporativas pode ser grande: algumas ferramentas usam o conteúdo para treinar modelos, outras não; algumas retêm os dados, outras permitem configurar. Leia os termos e as configurações antes de autorizar.
Critérios de avaliação:
- O fornecedor usa o conteúdo enviado para treinar os modelos? É possível desativar?
- Onde os dados são armazenados e por quanto tempo?
- Há contrato com cláusulas de confidencialidade e tratamento de dados?
- Há controle de acesso e registro de uso?
- Existe a opção de excluir os dados?
O checklist para escolher software jurídico traz perguntas úteis para qualquer ferramenta, inclusive de IA.
2. Que dados podem entrar?
Uma regra simples em três níveis:
| Nível | Exemplos | Regra |
|---|---|---|
| Livre | Dúvidas conceituais, estrutura de texto, ideias de título, conteúdo público | Pode usar qualquer ferramenta autorizada |
| Anonimizado | Trechos de peça ou contrato sem nomes, CPF, endereços, valores identificáveis | Só em ferramenta aprovada, com revisão antes de enviar |
| Proibido | Dados pessoais de clientes e terceiros, dados sensíveis (saúde, criminal, família), processos em segredo de justiça, estratégias, documentos integrais | Não entra, salvo ferramenta com garantias contratuais e autorização expressa |
Lembre-se de que anonimizar de verdade exige cuidado: um relato detalhado pode identificar a pessoa mesmo sem nome.
3. Para que a IA pode ser usada?
Defina usos permitidos, que normalmente são aqueles em que o risco é baixo e a revisão é simples:
- Rascunho de e-mails e comunicações.
- Estruturação de textos e resumos de material público.
- Revisão ortográfica e de estilo.
- Ideias de roteiro para conteúdo jurídico.
- Tradução de textos não sigilosos.
E usos que exigem cuidado redobrado ou que o escritório decide proibir:
- Pesquisa de jurisprudência sem verificação nas fontes oficiais.
- Redação de peças com dados de clientes.
- Cálculos de prazo ou de valores sem conferência.
- Respostas jurídicas diretas ao cliente sem revisão de advogado.
Atendimento com IA que se identifica como assistente, registra tudo e passa para o advogado quando precisa.
Demonstração gratuita4. Quem revisa, e como?
Regra de ouro: nada gerado por IA sai do escritório sem revisão humana. Defina:
- Quem revisa (advogado responsável).
- O que a revisão verifica: precisão jurídica, existência e teor de toda citação, adequação ao caso.
- Como registrar que a revisão ocorreu.
Sobre citações, a regra é inegociável: toda lei, súmula, precedente ou doutrina citada deve ser conferida na fonte primária. Ferramentas generativas produzem referências plausíveis e inexistentes. O artigo sobre alucinação de IA e jurisprudência inventada detalha o problema e um protocolo de verificação.
5. O cliente é informado?
A Recomendação 001/2024 sugere considerar a comunicação ao cliente, de preferência por escrito, quando houver uso de IA no atendimento, com finalidade, limites e medidas de segurança. Decida como o escritório faz isso: uma cláusula no contrato de honorários, um aviso no termo de ciência, uma menção na mensagem de boas-vindas.
Para atendimento automatizado (um assistente virtual no WhatsApp, por exemplo), a regra é a transparência: o assistente se identifica como assistente e não se apresenta como advogado.
6. O que acontece quando algo dá errado?
Defina o procedimento para incidentes:
- Dados enviados por engano a ferramenta não autorizada.
- Citação inexistente descoberta depois de protocolada.
- Resposta incorreta dada a cliente.
Quem é comunicado, em quanto tempo, e o que se faz (corrigir, avisar o cliente, avaliar se há incidente de segurança com dados pessoais a tratar nos termos da LGPD). Ter o roteiro pronto evita improviso na hora ruim.
Modelo de política (adapte)
POLÍTICA DE USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL — [NOME DO ESCRITÓRIO]
1. Objetivo. Orientar o uso de ferramentas de IA para ganhar eficiência sem comprometer o sigilo profissional, a proteção de dados e a qualidade do trabalho.
2. Ferramentas autorizadas. Somente as listadas no Anexo I, revisado a cada [seis meses]. O uso de qualquer outra ferramenta com dados do escritório depende de aprovação de [responsável].
3. Dados. É proibido inserir em ferramentas de IA dados pessoais de clientes ou terceiros, dados sensíveis, informações de processos em segredo de justiça, estratégias processuais e documentos integrais, salvo em ferramenta autorizada para esse fim. Conteúdos anonimizados podem ser usados apenas em ferramentas autorizadas e após conferência.
4. Usos permitidos. [lista]. Usos vedados ou condicionados. [lista].
5. Revisão. Todo conteúdo gerado ou assistido por IA é revisado por advogado antes de ser enviado a cliente, protocolado ou publicado. Toda citação é conferida em fonte primária.
6. Transparência. O uso de IA no atendimento ao cliente é informado conforme [cláusula/aviso]. Assistentes virtuais se identificam como tais.
7. Responsabilidade. O profissional que assina ou envia o conteúdo responde por ele.
8. Incidentes. Qualquer uso em desconformidade é comunicado imediatamente a [responsável].
9. Treinamento e revisão. Todos os integrantes recebem orientação ao ingressar e a política é revista [semestralmente].
Como implantar sem criar burocracia
- 1
Faça um levantamento honesto
Pergunte à equipe, sem punição, quais ferramentas de IA já estão em uso. O que não se conhece não se controla.
- 2
Escolha poucas ferramentas
Configure-as bem, em vez de liberar tudo ou proibir tudo. Proibição total costuma gerar uso escondido.
- 3
Treine em 30 minutos
Mostre exemplos reais de o que pode e o que não pode.
- 4
Revise a cada semestre
O cenário muda rápido.
- 5
Registre a ciência da equipe
Um termo simples assinado basta.
Erros comuns
- Proibir e fingir que ninguém usa. O uso acontece fora do radar, em contas pessoais.
- Confiar em "modo privado" sem ler os termos. O que a interface promete e o que o contrato garante podem ser coisas diferentes.
- Achar que anonimizar é trocar o nome por "Fulano". Detalhes do caso podem identificar a pessoa.
- Esquecer os clientes. Quando a IA entra no atendimento, a transparência com o cliente também entra na política.
- Não definir responsável. Política sem dono não é cumprida.
Conclusão
Uma política de IA de uma página muda mais o comportamento do escritório do que qualquer treinamento genérico: define o que entra, o que sai, quem revisa e o que fazer quando algo dá errado. Ela não impede a equipe de ganhar tempo, só impede que o ganho de tempo custe o sigilo ou a credibilidade do escritório.
Se for começar hoje, escreva três linhas: quais ferramentas são autorizadas, quais dados nunca entram e quem revisa tudo que sai. O resto se constrói depois.
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Perguntas frequentes
O escritório precisa ter uma política de uso de IA?
Não há norma que imponha um documento específico, mas a Recomendação 001/2024 do Conselho Federal da OAB e as regras de sigilo e de proteção de dados tornam a política uma medida prudente de governança, principalmente para equipes com mais de uma pessoa.
Posso colocar uma petição inteira em uma ferramenta de IA?
Depende da ferramenta e do conteúdo. Peças com dados de clientes só devem ir para ferramentas com garantias contratuais de confidencialidade e sem uso do conteúdo para treinamento, com autorização do escritório. Na dúvida, anonimize de verdade ou não use.
Preciso avisar o cliente que uso IA?
A Recomendação 001/2024 sugere considerar comunicar o cliente, de preferência por escrito, com finalidade, limites e medidas de segurança. No atendimento automatizado, o assistente deve se identificar como tal.
Quem responde por um erro cometido pela IA?
O profissional que assina ou envia o conteúdo. A ferramenta não assume responsabilidade perante o cliente nem perante o juízo.
Como evitar citações de jurisprudência inventadas?
Conferindo toda citação diretamente na fonte primária (site do tribunal, base oficial) antes de usá-la. Ferramentas generativas podem gerar referências convincentes e inexistentes.
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