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Compliance9 min de leitura

Política de uso de IA no escritório de advocacia: modelo prático

Em algum momento, alguém do escritório já colou um trecho de contrato ou a conversa de um cliente em uma ferramenta de IA para ganhar tempo. Sem regras, cada pessoa decide sozinha o que é seguro. Veja como escrever uma política de uma página.

Documento de uma página com política de IA, cadeado, escudo e três níveis de risco em verde, amarelo e vermelho para um escritório de advocacia

Em algum momento, alguém do escritório já colou um trecho de contrato, uma petição ou a conversa de um cliente em uma ferramenta de IA para "ganhar tempo". Provavelmente mais de uma pessoa. E provavelmente sem que o sócio soubesse.

Isso não é malícia: é produtividade. O problema é que, sem regras, cada pessoa decide sozinha o que é seguro, e a decisão errada pode atingir o sigilo profissional, a LGPD e a responsabilidade do escritório.

Este artigo não repete a comparação de ferramentas (para isso, veja melhores IAs para advogados). O foco é prático: como escrever uma política de uso de IA de uma página, com um modelo que o escritório pode adaptar.

Aviso

O modelo é um ponto de partida, não um parecer. Adapte ao seu escritório, às ferramentas que você usa e às orientações da sua Seccional e, se houver dados pessoais em larga escala, de um profissional de proteção de dados.

O que as regras já dizem

O quadro normativo sobre IA na advocacia está em formação, mas há pontos de apoio:

  • Recomendação nº 001/2024 do Conselho Federal da OAB, sobre o uso de IA generativa na prática jurídica. Entre as orientações, destaca a atenção especial ao usar IA para levantar doutrina e jurisprudência (item 3.2), com a lembrança do dever de veracidade perante o juízo (CPC, art. 77), e a recomendação de considerar comunicar ao cliente, de preferência por escrito, o uso da ferramenta, com finalidade, limites e medidas de segurança (item 4.4).
  • Sigilo profissional. O Estatuto da Advocacia (art. 34, VII) considera infração disciplinar violar, sem justa causa, o sigilo profissional. Dados do cliente colocados em uma ferramenta que não oferece garantias adequadas de confidencialidade são um risco.
  • LGPD (Lei 13.709/2018). Dados pessoais de clientes e de terceiros, inclusive sensíveis, exigem base legal, finalidade, minimização e segurança. Veja LGPD para escritórios de advocacia.
  • Responsabilidade pela peça. Quem assina responde pelo conteúdo. Citação de jurisprudência inexistente gerada por IA já levou advogados a sanções em diversos países, e o risco existe aqui também.

A política interna é o instrumento que transforma esses princípios em rotina.

As seis perguntas que a política precisa responder

1. Quais ferramentas são autorizadas?

Liste as aprovadas e proíba as demais para dados de clientes. A diferença entre versões gratuitas e corporativas pode ser grande: algumas ferramentas usam o conteúdo para treinar modelos, outras não; algumas retêm os dados, outras permitem configurar. Leia os termos e as configurações antes de autorizar.

Critérios de avaliação:

  • O fornecedor usa o conteúdo enviado para treinar os modelos? É possível desativar?
  • Onde os dados são armazenados e por quanto tempo?
  • Há contrato com cláusulas de confidencialidade e tratamento de dados?
  • Há controle de acesso e registro de uso?
  • Existe a opção de excluir os dados?

O checklist para escolher software jurídico traz perguntas úteis para qualquer ferramenta, inclusive de IA.

2. Que dados podem entrar?

Uma regra simples em três níveis:

NívelExemplosRegra
LivreDúvidas conceituais, estrutura de texto, ideias de título, conteúdo públicoPode usar qualquer ferramenta autorizada
AnonimizadoTrechos de peça ou contrato sem nomes, CPF, endereços, valores identificáveisSó em ferramenta aprovada, com revisão antes de enviar
ProibidoDados pessoais de clientes e terceiros, dados sensíveis (saúde, criminal, família), processos em segredo de justiça, estratégias, documentos integraisNão entra, salvo ferramenta com garantias contratuais e autorização expressa

Lembre-se de que anonimizar de verdade exige cuidado: um relato detalhado pode identificar a pessoa mesmo sem nome.

3. Para que a IA pode ser usada?

Defina usos permitidos, que normalmente são aqueles em que o risco é baixo e a revisão é simples:

  • Rascunho de e-mails e comunicações.
  • Estruturação de textos e resumos de material público.
  • Revisão ortográfica e de estilo.
  • Ideias de roteiro para conteúdo jurídico.
  • Tradução de textos não sigilosos.

E usos que exigem cuidado redobrado ou que o escritório decide proibir:

  • Pesquisa de jurisprudência sem verificação nas fontes oficiais.
  • Redação de peças com dados de clientes.
  • Cálculos de prazo ou de valores sem conferência.
  • Respostas jurídicas diretas ao cliente sem revisão de advogado.

Atendimento com IA que se identifica como assistente, registra tudo e passa para o advogado quando precisa.

Demonstração gratuita

4. Quem revisa, e como?

Regra de ouro: nada gerado por IA sai do escritório sem revisão humana. Defina:

  • Quem revisa (advogado responsável).
  • O que a revisão verifica: precisão jurídica, existência e teor de toda citação, adequação ao caso.
  • Como registrar que a revisão ocorreu.

Sobre citações, a regra é inegociável: toda lei, súmula, precedente ou doutrina citada deve ser conferida na fonte primária. Ferramentas generativas produzem referências plausíveis e inexistentes. O artigo sobre alucinação de IA e jurisprudência inventada detalha o problema e um protocolo de verificação.

5. O cliente é informado?

A Recomendação 001/2024 sugere considerar a comunicação ao cliente, de preferência por escrito, quando houver uso de IA no atendimento, com finalidade, limites e medidas de segurança. Decida como o escritório faz isso: uma cláusula no contrato de honorários, um aviso no termo de ciência, uma menção na mensagem de boas-vindas.

Para atendimento automatizado (um assistente virtual no WhatsApp, por exemplo), a regra é a transparência: o assistente se identifica como assistente e não se apresenta como advogado.

6. O que acontece quando algo dá errado?

Defina o procedimento para incidentes:

  • Dados enviados por engano a ferramenta não autorizada.
  • Citação inexistente descoberta depois de protocolada.
  • Resposta incorreta dada a cliente.

Quem é comunicado, em quanto tempo, e o que se faz (corrigir, avisar o cliente, avaliar se há incidente de segurança com dados pessoais a tratar nos termos da LGPD). Ter o roteiro pronto evita improviso na hora ruim.

Modelo de política (adapte)

POLÍTICA DE USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL — [NOME DO ESCRITÓRIO]

1. Objetivo. Orientar o uso de ferramentas de IA para ganhar eficiência sem comprometer o sigilo profissional, a proteção de dados e a qualidade do trabalho.

2. Ferramentas autorizadas. Somente as listadas no Anexo I, revisado a cada [seis meses]. O uso de qualquer outra ferramenta com dados do escritório depende de aprovação de [responsável].

3. Dados. É proibido inserir em ferramentas de IA dados pessoais de clientes ou terceiros, dados sensíveis, informações de processos em segredo de justiça, estratégias processuais e documentos integrais, salvo em ferramenta autorizada para esse fim. Conteúdos anonimizados podem ser usados apenas em ferramentas autorizadas e após conferência.

4. Usos permitidos. [lista]. Usos vedados ou condicionados. [lista].

5. Revisão. Todo conteúdo gerado ou assistido por IA é revisado por advogado antes de ser enviado a cliente, protocolado ou publicado. Toda citação é conferida em fonte primária.

6. Transparência. O uso de IA no atendimento ao cliente é informado conforme [cláusula/aviso]. Assistentes virtuais se identificam como tais.

7. Responsabilidade. O profissional que assina ou envia o conteúdo responde por ele.

8. Incidentes. Qualquer uso em desconformidade é comunicado imediatamente a [responsável].

9. Treinamento e revisão. Todos os integrantes recebem orientação ao ingressar e a política é revista [semestralmente].

Como implantar sem criar burocracia

  1. 1

    Faça um levantamento honesto

    Pergunte à equipe, sem punição, quais ferramentas de IA já estão em uso. O que não se conhece não se controla.

  2. 2

    Escolha poucas ferramentas

    Configure-as bem, em vez de liberar tudo ou proibir tudo. Proibição total costuma gerar uso escondido.

  3. 3

    Treine em 30 minutos

    Mostre exemplos reais de o que pode e o que não pode.

  4. 4

    Revise a cada semestre

    O cenário muda rápido.

  5. 5

    Registre a ciência da equipe

    Um termo simples assinado basta.

Erros comuns

  • Proibir e fingir que ninguém usa. O uso acontece fora do radar, em contas pessoais.
  • Confiar em "modo privado" sem ler os termos. O que a interface promete e o que o contrato garante podem ser coisas diferentes.
  • Achar que anonimizar é trocar o nome por "Fulano". Detalhes do caso podem identificar a pessoa.
  • Esquecer os clientes. Quando a IA entra no atendimento, a transparência com o cliente também entra na política.
  • Não definir responsável. Política sem dono não é cumprida.

Conclusão

Uma política de IA de uma página muda mais o comportamento do escritório do que qualquer treinamento genérico: define o que entra, o que sai, quem revisa e o que fazer quando algo dá errado. Ela não impede a equipe de ganhar tempo, só impede que o ganho de tempo custe o sigilo ou a credibilidade do escritório.

Se for começar hoje, escreva três linhas: quais ferramentas são autorizadas, quais dados nunca entram e quem revisa tudo que sai. O resto se constrói depois.

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Perguntas frequentes

O escritório precisa ter uma política de uso de IA?

Não há norma que imponha um documento específico, mas a Recomendação 001/2024 do Conselho Federal da OAB e as regras de sigilo e de proteção de dados tornam a política uma medida prudente de governança, principalmente para equipes com mais de uma pessoa.

Posso colocar uma petição inteira em uma ferramenta de IA?

Depende da ferramenta e do conteúdo. Peças com dados de clientes só devem ir para ferramentas com garantias contratuais de confidencialidade e sem uso do conteúdo para treinamento, com autorização do escritório. Na dúvida, anonimize de verdade ou não use.

Preciso avisar o cliente que uso IA?

A Recomendação 001/2024 sugere considerar comunicar o cliente, de preferência por escrito, com finalidade, limites e medidas de segurança. No atendimento automatizado, o assistente deve se identificar como tal.

Quem responde por um erro cometido pela IA?

O profissional que assina ou envia o conteúdo. A ferramenta não assume responsabilidade perante o cliente nem perante o juízo.

Como evitar citações de jurisprudência inventadas?

Conferindo toda citação diretamente na fonte primária (site do tribunal, base oficial) antes de usá-la. Ferramentas generativas podem gerar referências convincentes e inexistentes.

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